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Mulheres que correm como hackers

Texto originalmente publicado na Coluna de Terça.



Ilustração de Cláudio Brites.


Nerds da tecnologia podem se achar os mais legítimos hackers da sociedade.

Coachs de Linkedin de plantão podem dizer que estão inventando a roda quando falam de "life hack". Mas as verdadeiras donas e proprietárias de todo hacking que faz movimentar as mudanças nas próprias vidas, nos seus coletivos e na sociedade, são elas, as mulheres. São elas que reagem e botam o cropped da subversão e hackeiam sistemas alimentados pelas desigualdades de gênero, pelo machismo e pelo racismo.


Geralmente conhecemos o hacker como aquela pessoa que conhece e faz alterações em dispositivos tecnológicos, programas e redes de computadores. Mas hacker é toda pessoa capaz de fazer hack (em português, uma modificação) em qualquer sistema. Ou seja, mulheres são nesse contexto modificadoras dos sistemas.


O termo "life hacks" representa mecanismos inventados para facilitar tarefas do dia-a-dia, com intenção de administrar melhor o tempo e tornar alguns trabalhos mais viáveis. Vocábulo bonito para denominar o famoso "se vira nos 30" que nós somos submetidas todos os dias.


Sendo assim, já excluo aqui qualquer possibilidade de um entendimento romantizado acerca deste "talento" desenvolvido pelas mulheres. Nós hackeamos por sobrevivência: seja porque estamos longe da equidade de gênero na sociedade, seja pelo racismo que sequestra oportunidades de mulheres negras, seja porque estamos sobrecarregadas em todos os sentidos. Desde pequenas questões pessoais, individuais, corriqueiras, até os grandes desafios impostos na estrutura que privilegia homens, em especial brancos, é sempre "nós por nós" para superar modificar, conquistar, e na maioria das vezes, para apenas nos mantermos vivas.



Para tornar essa ideia de hack mais legível, vamos enfrentar alguns dados. O IBGE fez levantamento em 2017 no qual comprova que o rendimento das mulheres equivale a cerca de três quartos da renda dos homens. A média da renda dos homens é R$2.306, a das mulheres é de R$1.764. Outra pesquisa feita pelo Insper, mostra que homens brancos com ensino superior têm um salário médio 159% maior do que o das mulheres negras que também cursaram faculdade.


Não à toa, são elas que lideram os projetos (hacks) de diversidade e inclusão, que protagonizam a luta organizada por salários iguais e por garantia de vagas em cargos de liderança para mulheres.


Mesmo antes da pandemia, passamos por uma gigantesca crise econômica, e, como geralmente ocorre em períodos assim, as mulheres são as mais prejudicadas. O IBGE surge de novo para não nos deixar mentir: em 2020, a taxa de participação das mulheres no mercado de trabalho ficou em 45%, 14% menos do que em 2019 (dados extraídos no Pnad Contínua). Ao todo, foram registradas 8,5 milhões de mulheres a menos no mercado de trabalho. Surgiram vagas de emprego sim, mas privilegiaram postos ocupados por homens. Numa outra pesquisa mais recente (2021) da FGV, aponta que = apenas 51,56% das mulheres estavam empregadas neste ano. O índice entre os homens é de 71,64%


E se as mulheres, apesar de enfrentarem desafios, são as responsáveis por sustentar suas famílias, mas também são as mais prejudicadas no mercado de trabalho nos últimos anos, restou para elas hackearem seus sustentos através do mercado informal precarizado, instável, sem garantias e sem segurança.


Em 2019, a informalidade pegou em cheio 41,1% da população brasileira, o maior índice desde 2016. Onze estados do país superaram a taxa de 50% de trabalhadores sem carteira assinada. As mulheres também lideram esse número.

Quando existe desemprego, existe fome. E chegamos então até mulheres hackers que se mobilizam através de uma tecnologia ancestral: a coletividade. O Mulheres Suburbanas em Ação, por exemplo, é um coletivo de mulheres liderado pela pedagoga Elaine Brandão. O Coletiv levantou uma campanha solidária e doou mais de seis toneladas de alimentos a pessoas em situação de rua e a mulheres chefes de família em Salvador, na Bahia.


Em entrevista para o site da Ecoa (UOL) em janeiro deste ano, Elaine explica que o coletivo foi inspirado em Valdomira Cerqueira Brandão, a mãe de Elaine, que era, lavadeira, não sabia ler e nem escrever, viúva, porém tinha como objetivo de vida: mudar o curso da história da única filha por meio da educação. E assim o fez.


Falando nela, a Educação, tem sido um dos hacks que as mulheres mais recorrem para modificar o sistema. Para ultrapassar as barreiras impostas, elas estudam mais, se profissionalizam mais e buscam acesso a mais experiências que os homens.

Isso acontece em todos os espaços, mas trago o destaque para a política institucional. A pesquisa "Perfil da Mulher na Política" realizada pelo projeto Me Faria Ouvir e Elas no Poder em 2020, aponta que 74% das mulheres no Brasil considera a Educação pauta prioritária na política. Em uma outra pesquisa feita pelo Instituto Alziras mostra que das prefeitas eleitas em 2016, 85% considera a mesma pauta uma prioridade de governo. A mesma pesquisa de 2016 também comprova que 71% dessas prefeitas possuem ensino superior, contra 50% dos homens. 42% dessas mulheres ainda possuem pós graduação.

Mesmo com todo esse "corre", há apenas 46 países em que as mulheres ocupam mais de 30% das cadeiras nos espaços da política institucional.. O Brasil, claro, não é um deles. Em 2021, a porcentagem de vereadoras eleitas foi de 16% e de prefeitas apenas 11,8%.


Na rotina, no dia-a-dia, hacks surgem pra dar conta da sobrecarga do trabalho doméstico, do trabalho fora, cuidar de filhos, cuidar de todas as outras pessoas, estudar e etc. Muitas vezes, tudo isso ao mesmo tempo. Até pra andar na rua somos hackers, já que ela não é um espaço pensado para nós e nos oferece perigo constante. Temos nossos truques para sobreviver em casa, na rua, no mercado de trabalho, nos espaços de poder. Saber hackear é muito bom e sabemos que somos muito boas nisso. Mas, ter o hack como tecnologia de existência e sobrevivência, cansa. Estamos cansadas, porém seguimos Afinal de contas, é sempre nós por nós e nós contra o sistema. Hackeando tudo, vamos juntas.

 
 
 

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