Os verdadeiros líderes que mudam o rumo da nossa História e porque o racismo tenta apagá-los
- Michele do Carmo
- Jan 31, 2022
- 5 min read

Texto publicado na edição 45 da Coluna de Terça, em novembro de 2021.
Vai completar um ano que li o texto de uma colunista da Folha intitulado “Quem é nossa Kamala?”. A coluna foi escrita no pós-eleições presidenciais dos Estados Unidos em 2020. Naquele momento, progressistas da internet estavam polvorosos pela saída de Trump e pela entrada de uma vice-presidente negra e de origem imigrante. Desde quando comecei a estudar um pouco mais sobre a verdadeira e complexa História do Brasil e a nossa condição de brasileiro no mundo, observo com indignação essa nossa síndrome de vira-lata relacionada ao Norte Global e acho até engraçado (rindo de desespero), como é natural elaborar posicionamentos considerando, como verdade inquestionável, os Estados Unidos o país “leader of free the world”.
Pois bem, se o título do texto da colunista me gerou estranhamento, o subtítulo causou revolta: “Por que não temos uma mulher com cacife político para ser nosso Biden?”. De primeira, gritei “ORAS, PORQUE SÃO ASSASSINADAS!”. Não chega a ser imoral esse tipo de questionamento conhecendo nossa construção social colonial, que é bastante específica, e nosso presente neo-liberal, racista e misógino? Não é um insulto não considerar (no texto inteiro) toda violência política de gênero, a luta por sobrevivência, questões estruturais, contextos pessoais e falta de suporte, inclusive dentro dos partidos?
Depois, comecei a questionar que tipo de cacife é esse? A gente quer e precisa de um Biden? Quem definiu que eles são modelos a seguir? É verdade que não temos essas mulheres?
Resgatei essa coluna porque ela martela na minha cabeça desde então. Olhar pra grama do vizinho e enxergá-la mais verde ao invés de semear seu próprio jardim é uma forma de não se responsabilizar pelo que se planta e colhe. O texto é uma representação de um pensamento comum no nosso país, e infelizmente, também nos meios progressistas.
Quando Angela Davis esteve no Brasil em 2019, fez questão de nos cutucar dizendo que não entende porque nós, brasileiros, damos mais atenção a ela do que a Lélia Gonzalez, uma gigante referência pro mundo inteiro . A resposta é simples: se olharmos e lermos Lélia, obrigatoriamente estamos olhando e lendo o pobre, o preto, o favelado e aqueles colocados às margens da sociedade. Teremos que encarar uma dor tão grande que nos sentiremos obrigados a agir, mesmo que pela culpa egoíca. Lélia, apesar de intelectual, professora com muitos títulos, não desassociava sua imagem daqueles que propôs representar. Ela descia dos palcos, ia pro chão, falar olho a olho, mostrar para os seus que a mensagem era pra eles. Não interessava onde ela tinha chegado se não pudesse levar todo seu povo junto. Acessar mais Angela Davis, numa realidade dos Estados Unidos e através do imaginário dos Panteras Negras, é ler uns dois livros, comprar umas camisetas com o rosto ou frase estampada e é isso. Mesmo que seu legado seja importantíssimo, inquestionável e que existam questões da diáspora muito semelhantes às nossas , ela fala de lá, dos estrangeiros.
Acessar mais Lélia é ter que reparar a cor da pele das pessoas que estão morando na rua do seu bairro. Admitir que a democracia racial no Brasil é uma farsa. Que nossa miscigenação veio através de estupros. Que parecemos mais com a Colômbia e com o Chile do que com qualquer país da Europa.
Se nossos olhos estivessem focados nas nossas próprias existências revolucionárias, teríamos ovacionado Marielle Franco antes mesmo dela ser brutalmente assassinada. Tenho certeza que Marielle seria presidente deste país e tiraria muita gente do conforto, inclusive intelectual. Por que sua potência foi reconhecida por geral apenas após a sua morte?
A tendência em só considerar referências e modelos abroad, reforça esse racismo colonial em todas as esferas. Melhor ter uma uma mulher branca como a Fernanda Montenegro (que se aproxima mais do fenótipo Europeu) ocupando a cadeira da Academia Brasileira de Letras , do que ter uma mulher negra retinta como Conceição Evaristo. Mesmo que o legado da segunda seja infinitamente mais relevante para a literatura nacional do que o trabalho da primeira. Precisa explicar os critérios de ter “cacife” no Brasil?
Nos casos em que matar não foi possível, invisibilizar essas existências é lei, de uma forma ou de outra. Pintaram Machado de Assis de branco, um dos maiores escritores de língua portuguesa do mundo. Pouco citam André Rebouças como um um homem negro, um dos maiores engenheiros e inventores da História do país. Tentaram boicotar a obra de Abdias Nascimento, um dos mais ilustres pensadores do racismo, citado por outros grandes autores no mundo inteiro. Valorizam uma roda de samba, mas quem conhece a história de Tia Ciata?
Grandes lideranças também são aquelas que operam na micropolítica. Por isso, me comove conhecer a política viva e pulsante que existiu em Laudelina de Campos Melo, por exemplo: a brasileira dos direitos das mulheres e das empregadas domésticas, que fundou o primeiro sindicato do segmento no Brasil. Ou saber de Cleone Santos, que trabalhou como prostituta no Parque da Luz e hoje lidera, com a freira Regina Célia Coradin, a ONG Mulheres da Luz, que oferece assistência a cerca de 140 mulheres, maioria trans, em situação de vulnerabilidade no centro de São Paulo.
Grandes lideranças também estampam os espaços públicos pintando novas possibilidades de futuro e representação, como tem feito as artistas Criola e Soberana Ziza.
Grandes lideranças são hackers e mudam realidades, seja através do empreendedorismo, como faz Nina Silva, negra e brasileira, CEO do Movimento Black Money, eleita a mulher mais disruptiva do mundo pelo Women in Tech Global Awards. Ou como a sua xará, Nina da Hora, cientista e pesquisadora que cria espaços para democratizar o acesso ao estudo e criação de novas tecnologias para jovens com poucos recursos.
Eu poderia estender esse texto para infinitas laudas com inúmeros exemplos, falando desde pessoas conhecidas, até exemplos da rotina brasileira, como uma mãe solo de periferia. O importante aqui é reconhecer que não é ambição que nos falta. O que nos falta é viver em um país em que o racismo não seja o método definidor da política destinada a população negra: a política da fome, que invisibiliza, que interrompe sonhos e que mata, antes mesmo de existir a possibilidade de traçar estratégias para ocupar os espaços de “poder” ainda hoje hegemônicos brancos.
Prefiro ovacionar a história dos nossos antepassados, daqueles que vieram antes de nós abrindo caminhos. Prefiro aplaudir nossos revolucionários do dia-a-dia, ajudar a fortalecer nossas ideias da forma que for possível, nas áreas diversas que ocuparmos. Tudo isso para que um dia a gente possa voltar a eleger alguém que entenda o que é este país, que represente a maioria que habita neste território. Maria Carolina de Jesus já dizia que “o Brasil precisa ser dirigido por quem já passou fome” ou pelo menos por alguém que já encarou a miséria de perto. Sendo assim, não me parece importante entender quem é nossa Kamala. I ain`t sorry. O que quero mesmo é saber como vamos conhecer, fortalecer e eleger as nossas Dandaras, Marielles, Lecis, Beneditas, Malunguinhas e Hiltons, espalhadas por todo país.


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